Cristãos-novos na família: dúvidas frequentes no início da pesquisa

Já faz um tempinho que comentei neste post sobre a possibilidade de obtenção de cidadania portuguesa pela via sefardita, ou seja, comprovando que entre seus antepassados houve um judeu que foi obrigado a se converter para o cristianismo, para evitar perseguições pelo Santo Ofício.

A grande questão é: como saber se você tem algum antepassado com essas características? Se você começar a procurar pela internet, provavelmente irá cair em páginas que falam sobre o tal “sobrenome judeu”, que poderá trazer uma lista imensa de sobrenomes ibéricos (Portugal e Espanha), inclusive o seu. Logo em seguida, você poderá procurar algum grupo de discussão sobre o tema, e lançar a clássica pergunta:

“meu sobrenome é tal (insira aqui qualquer um), eu li (ou alguém me disse) que é sobrenome de judeu, como faço para conseguir meu passaporte?”.

Então, antes de fazer essa pergunta por aí, é preciso deixar claro que isso de “sobrenome judeu”, em se tratando de sobrenomes ibéricos, é um mito. Aqui no Brasil, já faz parte do imaginário popular a ideia de que os judeus que se converteram à força adotaram no momento do batismo sobrenomes relacionados à elementos do reino vegetal ou animal, como árvores ou animais, e que o fato de possuir este sobrenome já indica que se possui antepassados cristãos-novos. Alguns genealogistas ou escritórios de serviços de cidadania sempre divulgam listas de sobrenomes para chamar a atenção, mas fato é que dificilmente um sobrenome ibérico, sozinho, irá comprovar alguma coisa.

Em primeiro lugar, vamos pensar: faria sentido os cristãos novos adotarem sobrenomes específicos que facilmente seriam associados a eles, já que a ideia era se “camuflar”? Parece que não. Então, logicamente, no momento da conversão adotaram sobrenomes de cristãos-velhos (os católicos tradicionais de Portugal ou Espanha). As Ordenações Filipinas, o código legal de Portugal à época, inclusive previa a possibilidade de um converso adotar qualquer sobrenome de família existente no Reino, até de famílias nobres – o que era vedado aos cristãos-velhos.

Em segundo lugar, se houve no passado algum cristão-novo com o mesmo sobrenome que você tem hoje, é possível que o seu sobrenome não tenha qualquer relação com o dele, podendo ser originário de um cristão velho, adotado de um padrinho de algum antepassado, ou até mesmo de um liberto que adotou o sobrenome do antigo proprietário e passou para as gerações futuras.

Além disso, você pode descender de um cristão-novo e ter um sobrenome bem diferente do dele – lembrando que poucos são os que mantém o mesmo sobrenome por gerações, principalmente quando é uma linha que envolve muitas mulheres.

Por fim, você pode pensar, se não existe sobrenome judeu, e o Dicionário Sefaradi de Sobrenomes? Essa é uma publicação de referência, que indica uma lista de sobrenomes com relação judaica do mundo inteiro, sejam das que não alteraram seus sobrenomes hebraicos, sejam de pessoas que foram julgadas pela Inquisição por criptojudaísmo. Assim, há sobrenomes ibéricos que se referem unicamente a determinadas pessoas e suas famílias, e não a todas as pessoas no mundo que possuem esses sobrenomes.

“a minha família tem costumes judaicos, como colocar a vassoura atrás da porta, não apontar para as estrelas, varrer a casa da entrada para os fundos…”

Por mais que algumas práticas possam ser relacionadas a costumes judaicos, também não dá para se basear somente nisso para se chegar à alguma conclusão. Lembremos que os cristãos novos se converteram no século XV-XVI, e desde então seus costumes foram sendo ocultados ou diluídos nas gerações futuras, de modo que, em muitos casos, em poucas gerações nem os próprios descendentes saberiam que havia um cristão-novo na família. Em regiões com alto índice de cristãos-novos (como o nordeste brasileiro, por exemplo), determinados costumes podem ter passado a ser realizados livremente, fazendo parte dos costumes de toda a comunidade (cristãos velhos, novos e escravos), então não há como dizer que se o fato de sua avó ter te ensinado que o correto é a pessoa varrer a casa da entrada para os fundos é um costume judaico da família ou um costume local, ensinado de geração a geração porque “sempre foi assim”.

“Fiz um teste de DNA e consta uma porcentagem de etnia sefardita ou asquenazita, isso não é prova?”

Os testes de DNA são uma curiosidade interessante, mas só irá ajudar se houver matches de parentesco com pessoas com árvores mais completas, que poderão trazer pistas para expandir a sua árvore. O DNA não tem qualquer validade para obtenção de nacionalidade portuguesa pela via sefardita.

“Os cristãos novos que eu vejo por aí são todos relacionados a famílias importantes, não vale a pena ir atrás disso porque sou de família humilde, não deve nem existir registro dos meus antepassados”

Não! O fato de você não pertencer a uma família abastada ou importante da região em que nasceu não indica que em gerações passadas as coisas não tenham sido diferentes. Os cristãos-novos deixaram centenas de milhares de descendentes pelo país inteiro, e obviamente, com o passar dos séculos, as famílias (sempre muito numerosas) podiam diminuir sua condição econômica. Além disso, antes da implantação do Registro Civil, todos os brasileiros eram católicos devotos e não deixavam de batizar e se casar conforme os preceitos da Igreja, então o fato de seus antepassados serem pobres não significa que não encontrará registros.

Dito isso, não há fórmula mágica nem rápida, só reunindo todas as pistas e montando sua árvore genealógica para chegar à alguma conclusão. Contrate um genealogista ou faça você mesmo, mas um fato importante é que, observando que sua árvore é composta por gerações de pessoas que estão no Brasil desde o período colonial, a chance de encontrar um cristão-novo é bem grande.

Vá montando sua árvore, e quando chegar a antepassados muito remotos (pessoas que viveram nos séculos XV ou XVI, geralmente do seu 10º avô para trás), procure saber se alguma delas foi investigada pela Inquisição por criptojudaísmo (realizar práticas judaicas sendo cristão convertido). Para facilitar, indico abaixo uma lista de cristãos-novos que já foram reconhecidos no processo de nacionalidade portuguesa, tente identificar algum em sua árvore:

Cristãos-novos reconhecidos

Atenção! Só há legitimidade se o antepassado investigado for seu antepassado direto ou colateral (irmão do seu antepassado, por exemplo). Pessoas adotadas em sua linha direta, ou cônjuges de um parente colateral não são válidas.

Se não encontrar nenhum cristão-novo em sua família, não se entristeça, pois com certeza essa busca foi uma jornada familiar muito valiosa.

 

 

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