Patronímicos: os primeiros sobrenomes

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Imagem: Annie Sprat (Unsplash)

O uso de sobrenomes foi uma prática iniciada pelo homem para se distinguir no seio de sua comunidade, em um contexto em que até então as pessoas somente utilizavam um nome próprio para serem identificadas. Como a variedade de nomes era escassa, e havia muitas com nome idêntico, o sobrenome foi a saída para que pudessem destacar sua individualidade.

Os primeiros vestígios de uso de sobrenomes podem ser encontrados  ainda durante o Império Romano, onde havia uma fórmula para identificar uma pessoa: prenome, nome gentílico, cognome e agnome. Sendo o prenome o primeiro, sem muita importância, o nome uma identificação do gens (grupo familiar), o cognome o apelido da família dentro do gens, e o agnome um título ou apelido relacionado à própria pessoa, como uma característica ou evento marcante. Por exemplo, o cônsul conhecido como Cipião Africano tinha por nome completo Publius (prenome) Cornelius (nome)  Scipio (cognome) Africanus Maior (agnome).

A variedade de nomes próprios era em torno de 30, então era comum as famílias nomearem seus filhos com números, como Quinto, Sétimo e Oitavo (daí que vem o nome Otávio). Com a queda do Império Romano, as populações remanescentes por toda a Europa passaram a adotar os nomes dos visigodos, que apresentavam um catálogo interminável de nomes “exóticos”, como Adefonso, Gontemirus, Esposendo, Atanagildo, dentre outros mais. Deste modo, caiu em desuso a fórmula romana de identificação, sendo o nome próprio a única forma de identificação.

Com o tempo, retornou a necessidade de uma identidade própria. Entrou em cena, então, o uso do patronímico, que nada mais é do que a indicação do nome do pai logo após o nome próprio, uma forma primitiva de sobrenome. Nos textos bíblicos já havia indícios deste tipo de prática,  onde se indica a fórmula “fulano, filho de beltrano”. Porém, foi no período da Idade Média, por volta dos séculos IX a XII,  que o patronímico chegou para ficar, por toda a Europa. Inicialmente com a identificação “fulano, filho de beltrano”, com o tempo foram adotadas formas abreviadas de resumir essa sentença, por meio de prefixos, sufixos, preposições ou declinações.

O filho sempre teria o nome do pai como sobrenome, na forma genitiva, e assim sucessivamente. Por exemplo, João Álvares é filho de Álvaro Fernandes e neto de Fernando Rodrigues. No final da Idade Média, estes patronímicos no genitivo passaram a ser sobrenomes familiares passados de geração a geração, e não mais mutáveis a cada geração, como outrora. Muitos chegaram até os dias de hoje, em todos os idiomas possíveis. Assim,  de uma maneira geral, as variações de patronímicos podem ser:

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Com o final da Idade Média, algumas famílias mais proeminentes passaram a adotar alcunhas ou apelidos relacionados a locais, profissões, características físicas, façanhas militares ou elementos da natureza como sobrenomes, para se distanciarem dos patronímicos, considerados vulgares (no sentido de populares). Ainda assim, os patronímicos se mantiveram vivos até os dias de hoje em muitas famílias.

Em algumas regiões aqui no Brasil, até recentemente, se praticou a aplicação do patronímico como sobrenome, derivado diretamente do antepassado anterior que tenha tido algum destaque na comunidade em que viveu. Assim, em minha família, por exemplo, tenho um Patrocínio José de Santana, cujos descendentes adotaram o Patrocínio de Santana como sobrenome que foi passado adiante, bem como um Firmino Gonzaga de Moraes, o qual, da mesma forma, o Firmino se tornou um elemento frequente no nome de seus descendentes.

E, em algumas regiões do interior do país, as pessoas ainda adotam um patronímico/matronímico “informal”. Ou seja, o nome conhecido em seu círculo é um tipo de apelido que evoca sua ascendência, apesar desta não constar em seus nomes registrados em cartório. Por exemplo, meus pais são conhecidos na cidade em que nasceram:

  • Maria de Pedro Veneranda: onde Maria é o nome de minha mãe, Pedro, seu pai, e Veneranda, sua avó.
  • Cícero de João Simão: onde Cícero é o nome do meu pai, e João Simão é o nome do meu avô (e com um complicador, esse Simão nem consta no seu registro civil).

E você, tem um patronímico no seu sobrenome ou no de seus pais?

 

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