Os genealogistas “quarenteners”

Em meados de março de 2020, Maria se viu confinada em casa. Com a pandemia de COVID-19 exigindo o isolamento social forçado, começou a cumprir teletrabalho, saindo somente para ir ao mercado. Depois de alguns dias assistindo os noticiários sem parar, de cansar de visitar online os museus pelo mundo e com as lives que iria assistir no final de semana já programadas, já sem ter muito o que fazer (já que seu trabalho nem demanda muito), começou a ver aqui e ali alguma coisinha no Facebook sobre genealogia. Depois, um primo falou alguma coisa sobre ir atrás dos documentos para conseguir algum passaporte europeu.

Com a curiosidade instigada, Maria entrou em grupos no Facebook sobre genealogia, e todos desses grupos só ficavam indicando para ela usar o site Family Search. Ela não entendia muito o que era isso, mas como todos indicaram, lá foi a Maria fazer uma conta no site. Ela não tem muita intimidade com essas coisas de internet (só domina os portais de notícias e redes sociais), mas como o site é em português, ela conseguiu entender o conceito e foi inserindo os nomes dos antepassados: “Que legal! Apareceu um nome sugerido aqui, vou confirmar, claro!” – é o que ela vai dizendo toda vez que inclui um novo nome. Assim como aqueles contratos de “eu aceito” que a gente assina sem ler na internet, ela vai incluindo todas as sugestões na árvore sem olhar direito.

Depois, no Facebook, alguém passou um link para um conjunto de registros paroquiais e ela começou a procurar os registros de algum antepassado ali. Mas ela não conseguia entender aquelas letrinhas tão estranhas. “Putz, só consegui entender o nome dos meus bisavós, mas o resto não to entendendo é nada! Vou jogar lá no grupo do Facebook pra ver se alguém ‘traduz’ pra mim!”. A cada novo registro, faz o mesmo.

Daí, um belo dia, você abre sua conta no Family Search e descobre que uma tal Maria passou como um furacão na árvore genealógica a qual você pertence, deixando a coisa toda parecida com a genealogia da série Dark: seu trisavô casado com a neta, sendo pai do seu tetravô. Sua bisavó não existe mais, as fontes sumiram. Zona total.

aficionados
Imagem: aficionados. com

Então, você vai reclamar da situação nos grupos de genealogia no Facebook e se depara com  mais um monte de pessoas reclamando da mesma situação, em meio a postagens infinitas de imagens do Family Search para os membros do grupo “traduzirem”. Tudo isso é resultado de um fenômeno recente: algo que eu chamo de “genealogista quarentener”, que nasceu do cenário da pandemia de COVID-19, como falei lá no início, e que afeta principalmente os usuários do Family Search. São centenas de pessoas que passaram a se dedicar à construção de suas árvores genealógicas nesse período, sem nenhum conhecimento prévio sobre genealogia, história ou paleografia.

Claro que a genealogia está acessível para todos, assim como o portal Family Search. É preciso ocupar o tempo livro em casa de forma útil, e erros são comuns nas pessoas que estão começando, e está tudo bem, já que ninguém é melhor do que o outro. Um quarentener, com certeza, pode se tornar um pesquisador mais criterioso no futuro. O problema maior aqui é o volume das alterações bizarras nas árvores comunitárias do Family Search nos últimos tempos.

Para evitar estresse e surpresas com essa situação – se isso te estressar, claro – uma opção é monitorar seus antepassados na plataforma, e quando receber o relatório semanal de alterações, e observar algo anormal, entrar em contato com quem fez as alterações e orientar sobre a situação – quem sabe até ensinar como funciona o Family Search. Depois, vá até a página do antepassado, clique em “alterações recentes” no canto direito e tente reverter as alterações problemáticas. Se isso se tornar muito frequente e você não aguentar mais corrigir erros toda semana, outra opção é migrar seus dados para um arquivo privado, seja programa de computador ou planilhas (eu já faço isso), e deixar o Family Search só para pesquisa.

Sobre visualizar diariamente o volume imenso de postagens de perguntas nos grupos de genealogia, talvez seja interessante silenciar as notificações por um tempo, assim você não se estressa e os quarenteners continuam postando suas dúvidas. Sobre isso, o genealogista português Francisco Queiroz, em um trecho de seu livro “Descubra as suas origens” (2016), destaca a questão da seguinte forma:

[…] é normal que tenhamos que pedir ajuda. Aliás, mesmo genealogistas com alguma experiência o fazem. Se estamos a pesquisar num arquivo, podemos pedir o auxílio de um técnico. Podemos também recorrer a grupos de entreajuda genealógica na internet. Porém, ao fazê-lo, devemos ter em conta que entreajuda é isso mesmo, e que não nos é lícito estar a pedir ajuda sempre que tenhamos uma dúvida, visto que cabe-nos o trabalho de entender o que encontramos (salvo se atribuirmos esse trabalho a alguém competente que seja pago para o fazer).

Agora, se é VOCÊ o genealogista quarentener:

  • Não seja ansioso, tente ler com mais atenção quando estiver acrescentando e unificando pessoas no Family Search.
  • Só altere informações de pessoas existentes se possuir fontes documentais que comprovem sua alteração – anexe-as.
  • Antes de aceitar uma sugestão de pessoa duplicada, abra o perfil da pessoa sugerida, olhe atentamente se as informações coincidem, e só depois confirme ou descarte.
  • Não exclua pessoas que já existem porque você não reconhece aquele nome completo para que você insira uma nova com nome similar. Unifique e transfira as fontes para o novo perfil.
  • Não exclua pessoas que você não tem certeza se existiram ou não.
  • Ao invés de postar todos os dias no Facebook perguntas que só vão te ajudar momentaneamente, tente se aprofundar em estudos genealógicos e paleográficos (procure livros, leia blogs – como esse!), o que qualificará muito sua pesquisa. Se não tiver tempo para estudos, contrate um genealogista.

Agindo com moderação, todos ficam satisfeitos!

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